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A crise do ‘subprime’ limitará as operações de fusões e aquisições transfronteiriças no sector da banca, pelo que, para já, o BCP deverá ser poupado de um eventual ‘takeover’ hostil. Esta é a convicção de Ricardo Salgado que, em declarações ao Diário Económico, diz acreditar que esta crise financeira levará os bancos, preocupados, a concentrarem-se nos seus próprios problemas, em vez de apostarem em novas operações de concentração.
“A crise financeira que se vive faz com que os bancos estejam preocupados e muito virados para dentro, o que deve desincentivar as ‘merger & acquisitions’ transfronteiriças”, sublinhou o presidente do BES. Quando questionado sobre se as actuais condições de mercado poderão também tornar menos provável um ataque ao BCP, o banqueiro recusou comentar o caso concreto do seu concorrente e limitou-se a referir que o seu raciocínio é válido em termos gerais. Ainda assim, na opinião de Ricardo Salgado, a “primeira, segunda, terceira e quarta preocupação do BCP deverá ser a de se manter independente”. O banqueiro já defendeu inúmeras vezes, a propósito de outras importantes empresas portuguesas, a importância da preservação dos centros de decisão nacionais.
Em relação a um envolvimento do BES numa tomada de controlo do BCP juntamente com o BPI ou com a CGD e de, tal como o “Expresso” noticiou no sábado, ter já manifestado a sua preocupação ao Governo português sobre uma eventual ameaça estrangeira, Ricardo Salgado disse desconhecer qualquer plano nesse sentido e negou ter mantido, recentemente, qualquer contacto sobre o assunto com o Executivo de José Sócrates. No entanto, acrescentou ao Diário Económico “que o Governo português sabe bem que o BES estará sempre pronto para intervir na eventual procura de soluções, sempre que em causa esteja o interesse nacional”.
O futuro do BCP O BCP é recorrentemente apontado como um alvo apetecível para grandes grupos estrangeiros, sobretudo, espanhóis, sendo que os rumores de um ‘take over’ sobre a instituição se avolumaram após o fracasso da OPA lançada sobre o BPI e durante a crise de liderança, que ainda está por resolver e que culminou na saída de Paulo Teixeira Pinto. O BPI, que tem como principal accionista a maior ‘caja de ahorro’ espanhola, o La Caixa, tornou-se, então, o principal “suspeito”. Este banco reforçou, em plena “guerra” de poder entre Jardim Gonçalves e Paulo Teixeira Pinto a sua participação no capital do BCP de 7,24% para 8,52% e, na altura, Fernando Ulrich não se furtou a publicitar o aumento da posição, bem como o seu “interesse estratégico”.
As declarações do CEO do BPI, a somar às frases pouco esclarecedoras de Jardim Gonçalves, na entrevista que deu ao “Público”, no dia 30 de Julho, acabaram por alimentar ainda mais a especulação sobre uma eventual fusão entre os dois bancos. Nessa entrevista, quando questionado sobre esse cenário, o fundador do BCP disse: “Todos sabem que eu sou a favor de alguma concentração no sector. Qual? A máxima”. E, sobre se existiriam condições para um entendimento entre BCP e BPI, foi evasivo: “Essa é matéria que depende das duas instituições”, frisou.
Após estas declarações de Jardim Gonçalves, surgiram duas leituras, a de que o fundador do BCP estaria apenas a retribuir, de forma descomprometida, o apoio do BPI contra Paulo Teixeira Pinto, e uma outra que apontava já para a existência de alguns contactos no sentido de construção de uma parceria. Para já, o que parece indiscutível é que o BPI decidiu marcar uma posição e que pretende ter uma palavra a dizer no futuro do BCP.
Mas, apesar de Ricardo Salgado garantir que não discutiu, nem participa na preparação de uma operação de tomada de controlo do BCP, será pouco provável, na opinião dos analistas, que, perante uma ofensiva estrangeira, o BES, ou mesmo a CGD, se mantenham impávidos e serenos a assistir à compra do maior banco privado português. Uma fonte contactada pelo Diário Económico admite que, nesse caso, os bancos portugueses poderão apostar na disputa de alguns activos do BCP, ou mesmo congregar esforços para desenhar uma alternativa com base nacional.
“Impacto limitado” em Portugal Ricardo Salgado disse seguir com enorme atenção a crise financeira actual, mas considera que o impacto do ‘subprime’ em Portugal será limitado. “O ‘subprime’ teve origem no mercado de crédito à habitação não regulado dos Estados Unidos. Por isso deverá ter um impacto limitado no nosso mercado”, disse em declarações ao Diário Económico. O banqueiro frisou ainda que os bancos portugueses não participam nesse tipo de operações, que “o sistema financeiro nacional tem uma situação confortável em termos prudenciais e as instituições financeiras têm uma reduzida exposição a esses factores de instabilidade”.
Banca portuguesa perde 4,1 mil milhões Desde 8 de Agosto, dia em que estalou a crise do crédito imobiliário nas bolsas, os três principais bancos portugueses cotados na Euronext Lisboa - BCP, BES e BPI - perderam 4,1 mil milhões de euros de capitalização. Ontem, estas três instituições financeiras valiam no mercado português 23,2 mil milhões de euros, valor que contrasta com os 27,3 mil milhões do início de Agosto.
Dos três bancos, o liderado por Filipe Pinhal foi o mais penalizado. A perda de valor de mercado eleva-se a quase 2,8 mil milhões de euros. Para além da crise imobiliária, o banco foi bastante afectado por toda a crise interna que durou mais de três meses e levou à demissão do presidente Paulo Teixeira Pinto. A alteração de estatutos do maior banco privado português gerou bastante polémica entre os vários accionistas, Teixeira Pinto e o fundador Jorge Jardim Gonçalves. Foram marcadas três assembleias gerais para resolver o assunto, mas não foi encontrado qualquer consenso entre as várias facções.
Filipe Pinhal assumiu as rédeas do BCP a 31 de Agosto. Entretanto, a Teixeira Duarte fez uma proposta para a alteração do modelo de governação do banco.
Relativamente às outras perdas de capitalização bolsista, o BES ocupa o segundo lugar da lista, com uma desvalorização superior a 800 milhões de euros, enquanto o BPI apresenta um ‘defice’ de apenas 500 milhões. O banco presidido por Fernando Ulrich foi o menos afectado pelo ‘sub-prime’, parecendo ‘protegido’ a esta situação. Porém, ontem a queda do título em cerca de 5% surpreendeu o mercado, que estava habituado a ver as acções deste banco a reagirem pouco às vendas bolsistas.
Acções do Northern Rock afundam 70% em dois dias As acções do Northern Rock, o quinto banco britânico de crédito hipotecário, afundaram ontem mais 37%, para mínimos de sete anos, fazendo com que o banco tenha caído quase 70% em dois dias, para uma capitalização bolsista de 1,8 mil milhões de euros.
Os clientes do banco começaram a retirar os depósitos feitos, que ascendiam, na passada sexta-feira, a cerca de três mil milhões de euros, depois de a instituição bancária ter anunciado que recorreu aos fundos de emergência transferidos pelo Banco de Inglaterra para fazer face a uma crise de liquidez.
Face aos milhares de pessoas que se reuniram ao longo de todo o fim-de-semana nos balcões do banco, o CEO, Adam Applegarth, viu-se obrigado a divulgar uma carta no ‘site’ da instituição, dirigida aos clientes e que garante que “os depósitos feitos no banco estão em segurança” e que quem quiser levantar os montantes investidos terá direito a eles, apesar de o tempo de espera para reaver o dinheiro poder ser um pouco mais alargado. Também o ministro britânico das Finanças, Alistair Darling, fez um novo apelo à calma aos clientes do Northern Rock, reafirmando a estabilidade da instituição. “É por isso que disse que o Banco de Inglaterra podia disponibilizar dinheiro ao Northern Rock, precisamente para que as pessoas que querem retirar o seu dinheiro possam fazê-lo”,
Entretanto o jornal Sunday Telegraph, citando fontes próximas do banco, afirma que as opções que estão em cima da mesa são vender ou retalhar o banco e em entrevista ao mesmo jornal, Applegarth admitiu a venda do mesmo.
Na passada sexta, o CEO afirmou que as dificuldades nos empréstimos começaram a 9 de Agosto, quando o banco francês BNP Paribas suspendeu os levantamentos de três fundos, argumentando que não podia avaliar o valor dos activos no mercado. Desde essa altura, segundo Applegarth, os bancos deixaram de fazer empréstimos uns aos outros, perante a incerteza de quem é que enfrentaria dificuldades. As negociações com o Banco de Inglaterra começaram no início de Setembro, quando se tornou evidente que os recursos financeiros não iriam a aumentar.
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