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08 de agosto de 2005
Quando a agricultura reduz seus lucros
Gazeta Mercantil 17:13 Horas


Com a autoridade de quem é o maior produtor de soja do mundo, o governador de Mato Grosso, Blairo Maggi, traçou cenário pessimista para a safra deste ano, prevendo redução no plantio do grão de 20% a 27% no estado e de cerca de 20% no País.

A Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) concordou com a projeção do governador.

Há nove anos, a área plantada cresce no Brasil. Os analistas do setor insistem em que o freio na expansão vem da falta de crédito. As dívidas em aberto das safras passadas dificultam novos financiamentos nos agentes privados ou oficiais. Além disso, os custos de produção, na maioria dos grãos, ficaram abaixo do preço final. No caso do arroz, o custo médio da produção por saca foi de R$ 25, enquanto o grão acabou vendido por R$ 15 a saca. Nesses dois produtos a redução de área plantada será de 540 mil hectares no arroz e de 2 milhões na soja.

É claro que o parâmetro de um ou dois produtos não pode representar todo o setor. Porém, o agronegócio enfrenta, por várias razões, uma autêntica ressaca na expectativa de expansão. Tais dificuldades estão presentes tanto no mercado interno como no externo. Quando a Fundação Getulio Vargas (FGV) registrou a terceira deflação consecutiva no Índice Geral de Preços - Disponibilidade Interna (IGP-DI), a coordenação da pesquisa explicou que a manutenção da deflação em julho foi motivada pela queda mais intensa dos preços agrícolas. Entre junho e julho, estes produtos deflacionaram de -1,34% para -1,71%, destacando-se o recuo de preços na soja, milho, aves, bovinos, café e leite in natura.

Os preços das principais commodities agrícolas recuaram também no mercado externo. Além disso, o maior problema do exportador é o câmbio, fato reconhecido até pelas autoridades do setor. Há uma semana, o ministro Roberto Rodrigues analisou a tendência de curto prazo para o setor dizendo: "Estamos com problemas dramáticos em relação ao câmbio, que prejudica os preços agrícolas mais que qualquer outro fator". Queda de preço e câmbio desfavorável reverteram as expectativas no setor agrícola, que acabaram atingindo atividades paralelas básicas. Neste ano, as estimativas são de um recuo nas vendas de silo da ordem de 40%. Não é caso isolado: as vendas de defensivos caíram 30% no primeiro semestre em relação ao mesmo período do ano passado.

Até produtos consolidados como trigo estão recuando em área plantada. Após dois anos de safra com 6 milhões de toneladas, neste ano a produção de trigo deve recuar para 4,5 milhões. Preços muito baixos na atual safra, dificuldade de negociação na passada e clima muito adverso forçaram redução da área plantada. No Rio Grande do Sul a redução prevista de plantio será de 21%.

Nesse quadro, de fato, a expansão de lavoura exige cautela. Quando o governador Maggi propôs expansão de lavoura de 5% (para gerar arrecadação), estudos técnicos mostraram que tal expansão poderia gerar mais problemas do que soluções, que começavam em questões ambientais e avançavam nas dificuldades de infra-estrutura para escoamento da safra. Esse tipo de gargalo demanda uma única solução: investimento. O governo federal tem sido extremamente desatento às dificuldades do setor, em especial quanto às condições da infra-estrutura de transporte. Caso saiam do papel, as Parcerias Público-Privadas (PPP) seriam a solução mais racional para a questão.

Por outro lado, nem sempre a agricultura deve comportar expansão incessante. Planejamento de longo prazo, que assegure preço e não permita plantio desordenado, é muito mais sensato que a simples expansão contínua. O governo não pratica uma política de proteção à agricultura que inclua investimento em infra-estrutura e efetiva colaboração no planejamento das safras.

Esquecido pelo Estado, o agricultor reage encolhendo expectativas, sem interação com seus pares e com o esforço exportador. A responsabilidade não é dele: sem garantia, sem crédito, assustado com as previsões, sem informação do que quer o governo, o agricultor apenas planta o que pode. Pior para o País.




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