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23 de agosto de 2005
Blindagem não é feita por juros altos
Gazeta Mercantil 12:12 Horas


O ministro Antonio Palocci deu um salto qualitativo no tipo de reação adotada pelo governo Lula ante as diversas denúncias de corrupção.

O ministro usou um exercício explícito de serenidade para justificar sua inocência e serenar os ânimos do mundo econômico. O comportamento do mercado financeiro ontem guardou relação direta com a firmeza exposta pelo ministro no domingo.

A defesa de Antonio Palocci convenceu porque ele deu resposta, sustentada em dados, para acusações que continham certo perfil político. Se é um fato que a licitação da Prefeitura de Ribeirão Preto para a prestação de serviços de limpeza pública, no valor de R$ 50 milhões, fora realizada antes de sua gestão, a acusação ficou fragilizada.

O ministro não perdeu a calma e não alterou a voz para mencionar o contundente argumento. Fez o mesmo quando utilizou de lógica para lembrar aos jornalistas que não se sentia traído por Rogério Buratti "porque não tinha relação de confiança estabelecida com ele". A confiabilidade no que dizia o ministro foi construída, portanto, pela forma e pelo conteúdo da sua entrevista.

Palocci infundiu serenidade no mercado, primeiro, ao dizer que não divide a segurança da ordem econômica brasileira em dois períodos, antes e depois de sua chegada ao ministério. Por isso, não se considera insubstituível. Ou seja, a estabilidade não é uma questão de pessoas, mas de escolhas em política econômica. E garantiu que os rumos dessa política não mudam e nem mesmo a crise política será "pretexto" para enfraquecê-la.

O ministro foi convincente ao falar em blindagem porque afirmou, com razão, que não é uma atitude de política econômica que "blinda a economia". Segundo ele, essa blindagem é resultado de decisões tomadas "lá atrás", lembrando, por exemplo, o fim da "conta movimento" e a Lei de Responsabilidade Fiscal. Como não fulanizou a atitude responsável em economia, o mercado, seja com quem for, entendeu o recado do ministro de que o fiador da atual política econômica não é a pessoa de Antonio Palocci.

Como a arrogância dos convictos e a onipotência do poder foram deixadas de lado, Palocci despertou confiança. Quando disse, após enumerar as conquistas de seu período de gestão, que aceita "de bom grado" as críticas, o ministro abriu um necessário espaço de debate.

Temos afirmado em nossos editoriais que, por exemplo, os recordes de exportação - uma das principais conquistas dessa gestão - esconde grave defasagem cambial, que produzirá danosos efeitos quando a situação do mercado internacional não for mais de amplo consumo.

A produtividade da indústria, ao lado da crescente presença de componentes importados (que entram pelo câmbio favorável e geram competitividade dos nossos manufaturados, mas destroem importantes empregos dos brasileiros), está mantendo os contratos de exportação na "área do dólar", os países da América do Norte e da América Latina.

Não é diferente com as commodities agrícolas, que padecem das mesmas restrições no mercado externo pelo real valorizado ao extremo. O atual regime de câmbio tem colaborado para manter a inflação "bem comportada" do atacado e dos preços administrados, mas está inviabilizando toda tentativa de conter os juros básicos. A transparência exibida pelo ministro no domingo deveria incluir um debate mais profundo dos benefícios dos atuais "fundamentos" da política econômica.

O empresário Antônio Ermírio de Moraes botou o dedo na ferida, em artigo publicado na Folha de S. Paulo de domingo, ao lembrar que a economia brasileira só permanecerá blindada ante os atuais riscos com ação externa e interna, a começar pela redução dos juros, porque, sem isso, "não precisaremos de crise política para quebrar a blindagem que até aqui funcionou".

Este é o ponto essencial. Sem ele, apesar da serenidade do ministro, de eficiência ímpar para acalmar o mercado, sem crescimento suficiente para gerar o emprego e renda de que precisamos, não se afastam os maus presságios da economia.




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