|
Não foi diverso o comportamento desses agentes quanto às decisões de investimento.
Após quatro meses consecutivos de expansão, ocorreu retração de 2,5% na produção industrial em relação a junho. O IBGE mostrou que é a maior queda desde dezembro de 2002, quando a produção industrial caiu 2,7%, mas alertou que o índice não inverte trajetória de alta na média móvel trimestral e sinaliza estabilidade.
Os maiores impactos negativos foram em veículos, material eletrônico e equipamentos de comunicação. Porém a retração de 4,5% nas montadoras, em julho, ocorreu após expansão de 8,3%, entre maio e junho. O recuo de 10,7% em julho em material eletrônico sucedeu a expansão acumulada de 32,3% entre março e junho. Ou seja, os setores que estavam "aquecidos" equilibraram-se e há sinais preliminares de retomada já em agosto. Portanto, não temos nenhum choque de oferta à vista. Muito ao contrário.
O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) prevê que a Formação Bruta de Capital Fixo no terceiro trimestre de expansão terá alta de 7,2% ante o mesmo período de 2004. A produção física de bens de capital caiu 7,6% em julho, em relação a junho; porém, no mesmo mês, o volume de importações de bens de capital subiu 23% na mesma base de comparação. A decisão de investir não mudou: trocou-se a origem do fornecedor, o que é bem diferente.
A persistência na decisão de investir adveio da crença de que atingimos o teto no uso da ortodoxia econômica. Depois de três meses de deflação, como duvidar que a inflação está sob controle? Como o Índice Geral de Preços-Mercado deve fechar o ano em 2,3%, os preços administrados de 2006 serão dois terços menor que o previsto. As cassandras que gostam de lembrar da inflação para exigir Selic alta perderam tanto a desculpa como o rumo.
O mercado financeiro também já fez as suas escolhas. O juro futuro despencou: na sexta-feira, o título com vencimento em janeiro de 2007 caiu de 17,81% para 17,66%. Não foi diferente no mercado externo. O risco-País bateu em 384 pontos. Apenas nos seis primeiros dias de setembro o risco-Brasil recuou 6,3%. Com a destruição do Katrina, os juros americanos devem permanecer por mais tempo nos atuais 3,5%, o que facilita a compra de títulos brasileiros.
O BC revelou que o afluxo dos investimentos estrangeiros diretos (IED) é o maior dos últimos 15 anos: nos 12 meses, até julho, o ingresso dos IED bateu em US$ 12,7 bilhões. Até mesmo o receio de choques financeiros externos, inclusive petróleo, é reduzido. O balanço de pagamentos é cada vez menos dependente de recursos financeiros: na sexta-feira o Tesouro Nacional informou que as reservas líquidas do Brasil atingiram US$ 42,92 bilhões, 36% maiores que em janeiro deste ano.
Nesse quadro, como sustentar que a Selic deve cair 0,25%? Não há risco no horizonte, seja inflacionário, seja de choque de oferta, seja internacional. É claro que há, ainda, o custo perverso do juro na dívida interna. No primeiro semestre o Brasil bateu o recorde de pagamento de juros: R$ 80,12 bilhões! Nesse período todo o setor público economizou R$ 59,95 bilhões. O déficit nominal daí resultante representou 2,77% do PIB. O governo trabalha com a hipótese de um déficit de 3,06% em dezembro, se os juros básicos caírem para 18%.
Quedas limitadas não produzirão esse índice. O País não suporta mais a convivência com os medos imaginários que empurraram sem parar os juros para cima e a qualidade do emprego e da renda para baixo. O trabalhador e o empresário não merecem mais a coleira apertada dos juros exterminadores do futuro. A tragédia anunciada da maior taxa de juro real do planeta precisa acabar. De qualquer modo.
|